Cidade investe em tecnologia e infraestrutura para reduzir perdas no sistema de abastecimento e serve de modelo para outras capitais.
Poucos temas urbanos revelam tanto sobre a gestão de uma cidade quanto o índice de perda no sistema de abastecimento de água. Quando uma capital consegue reduzir esse número de forma consistente, o impacto vai além da conta do consumidor: reflete capacidade de planejamento, investimento e gestão eficiente dos recursos públicos. Teresina tem se destacado nesse cenário nacional, aparecendo entre as capitais brasileiras com melhor desempenho no controle de perdas na distribuição de água. O resultado chama atenção sobretudo porque o Nordeste é uma região historicamente associada à escassez hídrica, o que torna o combate ao desperdício ainda mais urgente e estratégico.
A conquista não aconteceu por acaso. Ela é resultado de uma série de investimentos feitos nos últimos anos na modernização da infraestrutura hídrica da cidade, com obras de substituição de redes antigas, instalação de sistemas de medição mais precisos e manutenção preventiva das adutoras. Para uma cidade com mais de 905 mil habitantes e uma região metropolitana que ultrapassa 2,7 milhões de pessoas, reduzir o desperdício equivale a garantir que mais famílias tenham acesso regular à água tratada sem a necessidade de ampliar constantemente a captação nos rios.
Por que o combate às perdas de água importa
O índice de perda no abastecimento de água é um dos principais indicadores de eficiência de uma companhia saneadora. Ele mede a diferença entre o volume de água produzido nas estações de tratamento e o volume efetivamente consumido pelos clientes. Perdas físicas acontecem por vazamentos em redes subterrâneas, conexões irregulares e rompimentos. Perdas comerciais envolvem fraudes, erros de medição e ligações clandestinas. No Brasil, a média nacional de perdas gira em torno de 38%, um número elevado que representa bilhões de litros de água tratada jogados fora todos os anos, segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS).
Teresina trabalha com metas progressivas de redução dessas perdas, utilizando tecnologia de geomonitoramento para identificar rompimentos antes que causem danos maiores. A substituição gradual das redes mais antigas, muitas delas com décadas de uso, também tem contribuído para a diminuição dos vazamentos subterrâneos. Desde 2017, mais de 728 km de novas redes de abastecimento foram implantadas na cidade, segundo dados da Águas de Teresina, o que modernizou significativamente a malha de distribuição da capital.
Outro fator relevante é a pressão controlada nas redes. Sistemas com pressão excessiva tendem a romper mais facilmente, gerando perda de água e custo de reparo. A Águas de Teresina tem investido em válvulas redutoras de pressão em diferentes pontos da rede como estratégia de controle. O resultado combinado dessas ações tem colocado a capital piauiense em posição de destaque nos rankings nacionais de eficiência no setor.
O que Teresina pode ensinar ao Brasil
O caso de Teresina interessa ao debate nacional por uma razão prática: o Nordeste, região que mais sofre com a irregularidade hídrica, também é onde o saneamento historicamente recebeu menos investimento. Ver uma capital nordestina se destacar em eficiência de abastecimento desfaz um preconceito e apresenta um caminho viável para outros municípios da região. A lição que emerge da experiência teresinense é que investimento consistente, mesmo em cidades com menos recursos, produz resultados mensuráveis.
O abastecimento de água na zona urbana de Teresina foi universalizado em 2020, com mais de 826 mil pessoas beneficiadas com acesso regular à água tratada. Isso não significa ausência de problemas: interrupções pontuais por manutenções emergenciais ainda ocorrem, e a periferia mais distante enfrenta pressões menores na rede. Mas o panorama geral é de uma cidade que avançou estruturalmente, e esse avanço já aparece nos indicadores de saúde pública, com queda nos atendimentos por doenças de transmissão hídrica.
Para o Brasil, o exemplo de Teresina reforça o argumento de que o Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020, precisa ser implementado de forma efetiva em todo o país. A universalização do abastecimento e do esgotamento sanitário até 2033 é uma meta ambiciosa, mas cidades como a capital piauiense mostram que é possível avançar em ritmo acelerado quando há vontade política e investimento direcionado.
O que Teresina construiu na última década no setor de saneamento é um patrimônio urbano invisível, feito de canos, estações de tratamento e válvulas de pressão, mas com efeitos muito concretos na vida de quem mora na cidade. Menos doenças, menos desperdício e mais acesso são o resultado prático de decisões que parecem técnicas, mas que têm dimensão profundamente social. O desafio agora é manter o ritmo e garantir que as áreas ainda descobertas pelo sistema recebam a mesma atenção que as regiões centrais.
Fontes: Instituto Trata Brasil / Ranking do Saneamento 2026 | SNIS | Águas de Teresina
Autor: Diego Rodríguez Velázquez