Na trajetória de Fredy da Silva Gonçalves Bento, também conhecido como Fredy Restrito, CEO da Litoral Mobilidade, a assistência técnica aparece como peça tão central quanto a vitrine. A escolha contraria uma ideia comum sobre motos e scooters elétricas: a de que, por terem menos peças móveis que um modelo a combustão, elas quase dispensariam oficina.
De fato, não há troca de óleo, vela, embreagem ou correia de comando. O que existe no lugar é eletrônica embarcada, bateria de lítio e componentes importados que exigem diagnóstico específico. Para quem compra, isso muda a pergunta decisiva. Mais do que o preço na etiqueta, importa saber quem vai consertar o veículo, com que peça e em quanto tempo.
Menos mecânica, mais diagnóstico
Um veículo elétrico leve funciona a partir de três sistemas principais. O motor, geralmente instalado no cubo da roda traseira, recebe energia da bateria por meio de um controlador, que regula a potência entregue conforme o acelerador. A bateria, por sua vez, tem um sistema de gerenciamento eletrônico que monitora a tensão e temperatura de cada célula.
Fredy Restrito sustenta que quando algo falha, o sintoma raramente aponta a causa. Uma moto que perde força pode ter problema no controlador, em um sensor, em um conector oxidado ou na própria bateria. O mecânico generalista, treinado em motor a combustão, nem sempre tem equipamento ou conhecimento para separar essas hipóteses. Por isso, oficina especializada deixou de ser diferencial e passou a ser condição para o veículo continuar rodando.
Peça de reposição depende de importação
Boa parte dos componentes de motos, scooters e bicicletas elétricas vendidas no Brasil vem da China, onde está concentrada a cadeia produtiva de baterias, motores e controladores. Na prática, a disponibilidade de uma peça depende de planejamento feito meses antes.
Um controlador que leva semanas para chegar deixa o cliente sem transporte durante todo esse período. A Litoral Mobilidade lida com essa equação por meio de importação própria e de um centro de distribuição com mais de 2.000 metros quadrados, estrutura que permite manter peças em estoque além dos veículos. Para o consumidor, a lição é direta: antes de escolher o modelo, vale perguntar se a loja trabalha com reposição local ou se depende de encomenda a cada defeito.
A bateria define a vida útil
Entre todos os componentes, a bateria é o mais caro e o que mais influencia o valor de revenda. Fredy Restrito explica que as baterias de lítio perdem capacidade de forma gradual, conforme o número de ciclos de carga e as condições de uso.
Alguns hábitos aceleram esse desgaste. Deixar a bateria descarregar por completo com frequência, carregá-la logo após uso intenso, ainda quente, ou guardá-la por longos períodos totalmente cheia ou vazia reduz sua durabilidade. No litoral, a maresia acrescenta outro fator, porque favorece a oxidação de conectores e contatos elétricos. Uma boa orientação na entrega do veículo, explicando esses cuidados, evita boa parte das idas à oficina.
A regra de circulação também passa pela loja
A legislação de trânsito separa os veículos elétricos leves em categorias. Pela Resolução 996 do Contran, os autopropelidos, limitados a 32 km/h e motor de até 1.000 watts, dispensam habilitação e emplacamento. Já os ciclomotores, que chegam a 50 km/h, exigem registro, placa e habilitação na categoria A ou autorização para conduzir ciclomotor.
Muitos compradores não conhecem essa distinção. A informação correta no momento da venda protege o cliente de multa e apreensão, e protege também a reputação de quem vendeu.
Profissionalizar o setor é repetir o pós-venda
O mercado de mobilidade elétrica cresceu rápido no país, e parte dele cresceu sem estrutura para atender o que vende. É nesse ponto que Fredy Restrito situa a profissionalização do segmento: qualidade de produto, assistência técnica e pós-venda organizados como processo, e não como improviso.
Essa lógica orienta também o projeto de expansão da Litoral Mobilidade por meio de franquias. Replicar uma loja em outra cidade é relativamente simples. Difícil é replicar o atendimento que acontece depois da compra, com peça disponível, técnico preparado e cliente bem informado. Em um setor ainda jovem, é esse trabalho menos visível que separa uma onda de vendas de um mercado capaz de se sustentar.